terça-feira, 16 de junho de 2020

Jair


E agora, Jair?
A besta calou,
Ministro acordou,
Pouco se viu,
o jogo virou,
e agora, Jair?
e agora, eleitor?
que tem codinome,
ofende os outros,
que odeia versos,
difama, protesta?
e agora, Jair?

Está sem poder,
está sem discurso,
está sozinho,
já não pode lamber,
já não pode chupar,
cuspir já não pode,
a corja esfriou,
puxa-saco não veio,
o gozo não veio,
paraíso não veio,
não veio a orgia
até aos seus irritou
a muitos humilhou
a tudo desafiou,
e agora, Jair?

E agora, Jair?
Sua falsa palavra,
seu semblante de peste,
sem remédio nenhum,
sua merreca,
sem chave de ouro,
seu jeito indevido,
sua demência,
sem pódio — e agora?

O país na contramão
quer indicar caminho,
não existe porto;
vive fora do ar,
mas ar rareou;
com as cloroquinas,
engano não há mais.
Jair, e agora?

Se você ouvisse,
se você sentisse,
se conquistasse
a torcida palmeirense,
se silenciasse,
se você calasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
Se faz de puro, Jair!

Sozinho no planalto
qual bicho-do-mato,
quer a nossa agonia,
sem verdade sua
para se acreditar,
sem fake news      
que alcance sua tropa,
você marcha, Jair!
Jair, que se esconde.

Só mais um aparte: José representa um homem do povo, e Jair é alguém que não o representa.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

À noite, cachoeira

Esta noite
Desbravamos novos caminhos, de novo
Percorremos por outros sentidos
Rumo ao desconhecido
Que tínhamos a sensação de já dominar

Na trilha das descobertas
Subi morros
Desci montanhas
Me embrenhei pelas entranhas

Vi a lua nas encostas
Senti que estava nas alturas
E que era capaz de alcançar toda luz
Em meio à noite

Gritos, sussurros,
Suor escorrendo
O calor fazendo nossos corpos arderem por um novo sentir, novo de novo

Respiração ofegante
Um mergulhar em um infinito instante
De tirar o fôlego

A natureza deste instinto
Me levou a uma trilha
Em que percorri
Muitos quilômetros

Como veículo, mãos
Sendo guiadas a cada nova curva

Senti os aromas, respirei todos os sentidos
Para conseguir voltar, ir, voltar
Por curvas que estavam ao alcance e que até já haviam sido vividas
Mas era preciso escalar mais, saborear mais, me jogar mais

Para atingir o êxtase
Que veio em forma de cachoeira
Inundando nossos desejos
De mergulhar mais fundo
Pousando a língua no céu da boca

Há muitos sentidos a serem explorados ainda nessa caminhada
E o desejo é seguir sem pressa, sem pressão
Aprendendo a viver intensamente
Dias em nossas noites

sábado, 15 de dezembro de 2018

Na madrugada - Reynaldo Bessa

O texto a seguir foi extraído de música inédita que meu amigo Reynaldo Bessa interpretava em seus shows nos anos 1990:

NA MADRUGADA
(Reynaldo Bessa)

Não diga nada 
eu vim aqui te procurar
rasgar meu orgulho
me resignar

Quero seu nome
levar você pra outro lugar
dizer coisas belas
te namorar

Na madrugada
minhas lágrimas
a chuva lavou
levou meu sorriso
meu grito ecoou

Na madrugada
Minhas lágrimas 
a chuva levou 
lavou meus sentidos
meu grito ecoou

Nos quatro cantos do seu mundo
meu canto vagabundo
pensou e repensou
minhas palavras ferem o aço
do orgulho me desfaço
quero de volta o seu amor




sábado, 10 de março de 2018

De dia amantes


Como luz na escuridão

Dias nas minhas noites

A qualquer momento, meu sol de verão

De Madison, as pontes



Feito estrela na imensidão

Brilho do meu olhar

Rima da canção

Muito a representar



Alma imoral de meu corpo antes acomodado

Minha transgressão

Faz meu corpo transcender

Para preservar a evolução





15 de julho de 2011

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A forma da água ou La forma del Toro


Não importa a forma de seus bens
A forma que vale é o quanto faz o bem

Não importa a forma como se expressa
A forma de seu sentir é sua verdadeira expressão


A forma de sua silhueta não faz diferença
É especial pela forma como dança a cada movimento



Não é sua forma que torna você mais ou menos gente,
mas sim os contornos que fazem você ser humano

A forma como pensa é mais rica quando acompanhada da forma como age.
(Marcelo Abud)

Saiba mais sobre "A forma da água" nesta crítica do site Adorocinema.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

As palavras brincam com José Paulo Paes

90 anos de José Paulo Paes. Ouça o podcast com os especialistas em Literatura e estudiosos da obra do poeta, Ésio Macedo Ribeiro e Marcos Pasche. No áudio, você curte ainda poemas musicados por Madan. Essa homenagem a José Paulo Paes está aqui: 
PALAVRAS EM FESTA
Que bom que o aniversário do poeta cai em julho,
antes que as aulas interrompam as férias.
Assim dá para os poemas brincarem com as palavras
e a poesia chega puxando letra por letra. Nenhuma fica de fora.
De Paes para filhos,
a brincadeira acontece a qualquer hora.

Os relógios acertam os ponteiros,
que apenas marcam um número depois do outro,
sem tempo pro tempo acabar.
Há tempos, o hoje é apenas “o ontem de amanhã ou o amanhã do ontem”.
Dos 9 aos 90 é hora de dar vida às palavras.
Na poesia, elas estão sempre novas e reinventadas.

Lá de cima de um “algodão que chove”,
José Paulo Paes chama o amigo Madan
que faz frases se equilibrarem nas cordas de seu violão.
Agora ri melhor quem ri primeiro.
Como o sapo que veio dar um sopapo na sopa,
que era de letrinhas;
Esse sapo era bom de papo e novas palavras criou para declarar:
Paes na terra e, de preferência, descalço, para com as palavras brincar.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A voz e avós

Onde estará aquela incontida alegria que minha voz continha?
Por que manifesta-se cansada essa voz
que outrora impulsionava incansáveis manifestos?
O que há com aquela criatura que não crê mais no que cria?
Por que será que dizemos "sentir muito" pela impossibilidade de sentir?

A voz cala o grito
Outrora a voz gritava o que calava
Há voz no silêncio que se faz ouvir

O que há com a voz que troca idílios sentidos por trocadilhos sem sentido?
Por que depois de tanta tentação só nos resta tentar outra ação?
O que faz a voz ganhar vida na dúvida e na dívida?
Por que será que depois de termos nos entregado a tudo,
a voz diz "por nada"?

A voz grita sufocada pelos calos vocais
Vogais calam os gritos consoantes
Revogamos e sentimos muito por nada mais sentirmos

Fomos a voz!
Agora, somos apenas avós
Aliás, a duras penas

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Retrato da Vida

Uma poesia sem rimas, um coração que não ama, um passado condenado, um presente exaustivo, um futuro programado. Uma música sem ritmo, uma nota desafinada, mil tons errados. Um disco que não toca, um rádio que não fala, uma vida sem harmonia. Um livro sem páginas, uma frase sem sentido, um caminho sem destino, uma corrida sem chegada. Um texto sem enredo, sem personagens, sem sentido, uma história sem fim. Um relógio que já não marca mais as horas, nem os minutos, nem os segundos, uma ação sem reação. Uma folhinha perdida no tempo, o mundo girando ao meu redor, o vento batendo em meu rosto, o futuro batendo em minha porta. Um dia mal vivido, uma noite mal dormida, um céu sem estrelas, um voo rasante, um pensamento desordenado, um sonho acordado: estou certo de que tudo está errado. Uma hora sem minutos, um minuto sem segundos, mais um dia que se passa, mais um companheiro que se vai. Um país desgovernado, um universo sem rumo, um planeta jogado no espaço. Uma televisão sem imagens, um dia sem fatos, uma vida sem direção, os olhos fechados para o mundo. Uma vida em rascunho, sem tempo de passar a limpo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cidadeando

O texto a seguir foi escrito a 4 mãos com Reynaldo Bessa. No final, deixo um link onde é possível curtir uma versão musicada inédita. Escolhi publicá-lo hoje por acreditar que tem o clima do verão e de férias. Como este é o último final de semana de folga para muitos brasileiros, Cidadeando é uma boa trilha sonora para o momento...


Fui atrás da minha fé em Santa Catarina
Pequei
Fui lá em Porto Seguro, não me segurei
Agora meu Porto Alegre Ceará sempre assim, serei
Em cima dum monte, um Belo Horizonte fitei

Há lagoas fazendo Mato Grosso crescer
É preciso ser jipe pra poder atravessar
Rio de Janeiro a janeiro não posso Pará
Pra Paraná Paraíba, depois arribar
Arribei!

São Pedro, São Paulo, São Jorge são todos Bentos, sãos
Rio Grande demais transbordando no meu coração
Em nome do Pai, filho, Espirito Santo, amei Maranhão
Daqui e dali, onde piso, onde estou é meu chão

Há lagoas fazendo Mato Grosso crescer
É preciso ser jipe pra poder atravessar
Rio de Janeiro a janeiro não posso Pará
Pra Paraná Paraíba, depois arribar
Parei!

Cidadeando foi escrita em 1995 como música, a partir de influências do 1º CD de Chico César, Aos Vivos. Durante algum tempo, a composição fez parte dos shows de Reynaldo Bessa, como nesta interpretação gravada em show na Biblioteca Monteiro Lobato, em São Paulo.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Escultura

A ex-piração virou tradição
A ex-tradição, cultura
Es-cultura em ex-posição
Agora, a ex-pressão é livre
E já não se ouvem os acordes da es-canção
O que ficou foi a ex-animação do ex-ator ao ver a peça censurada no ato

Es-quadro virou peça de museu
E a es-tela do cinema é coisa de outros templos

Ex-altar agora é terreiro
Ex-orar: agora suplicar
Ex-pecar: agora pagar pelos pecados
O es-tridente ainda foge da cruz
Es-guia também se perdeu
Deixando a es-cura sem remédio

O ex-tinto já foi pro vinagre
O es-malte virou cerveja... que serviu ao es-trago
Es-carpa caiu na rede
E a es-cama-dura agora é coxão mole
O es-touro se transformou em boi manso
Es-puma virou churrasquinho de gato
Es-quilo agora é self-service

O es-batimento do ex-pulso é de morte
E, ainda assim, o es-cara-velho conserva uma criança dentro de si
Com o tempo, o es-cabelo foi reimplantado
E a ex-ótica do es-bugalho, recuperada
O es-cravo fugiu com a rosa
Do es-pinho fez-se o nobre violão

Es-mero se complicou
Es-trato foi quebrado
Es-tribo faz da TV programa de índio
O es-perto já está distante
E o es-paço se perdeu por caminhos errantes
Pé no chão: ex-ame, agora deixe-o!

Só nos resta ver nascer novamente
O ex-poente sol
Em ideias ex-aladas que tão alto voaram e estão de volta à Terra na forma de sentimentos profundos

No fim de semana, a camisa e o short são o ex-terno
que fazem do ex-tenso um pacato cidadão
E da es-carola, uma dama da noite

Es-cada: de degrau em degrau, o todo pela parte
Es-tudo: já não é nada e, ainda assim, és tudo
Ex-terminado... começa tudo de novo com a ex-piração

Este texto foi escrito por mim, em parceria com a jornalista Cimara do Prado, em um período de férias como esse, há 20 anos. Fazia faculdade e trabalhar com as palavras era um desafio que me atraía bastante.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Verão

A manhã sendo
Amanhecendo
Flor e cultura vou cultivar
Todos Verão
De dentro pra flora, uma bela canção brotar

De manhã, cedro
Se você Flor
Eu Sol quero ser
E então, todos Verão
Florescer, flor crescer, flora ser

Todos Verão...
Verão Flora ser
Árvore no alvorecer
Menina nos braços do dia
Todos Verão...
Verão Flora ser tão quente
Ser tão seca
Ser tão colorida

Mata Flora
Morro de amor
Flores, pinhos
E quando sementes caírem
Todos Verão
Flora florescer
Flora ser mãe natureza

Agora, Flora chora
Amar é lôbrego
Amar é lua
E Flora nos braços de uma estrela se enreda
Só para ver a noite ser
Anoitecer quente, pois é Verão.

Escrevi este texto em meados da década de 1990, inspirado na música De Dentro Pra Flora, do cantor e compositor Reynaldo Bessa.